Desculpaí
(5), mas Jesus existiu: Fontes Cristãs
Por R. LOPES
Chegou a
hora de enfrentarmos as fontes antigas que trazem mais informações, mas também
mais dúvidas, sobre Jesus: os documentos cristãos do século 1º d.C.,
obviamente. “Mas peraí”, alguém poderia objetar com toda a justiça, “isso não é
roubalheira? Afinal, se a fonte é cristã, obviamente o autor achava que Jesus
existiu, certo?”
Claro — quer
dizer, não tão claro; há algumas hipóteses doidas que tentam mostrar que, para
o apóstolo Paulo, por exemplo, Jesus foi apenas um ser divino, e não alguém de
carne e osso que morreu na cruz. Mas o que a metodologia de análise histórica
faz é tentar superar esse viés analisando detalhadamente as fontes cristãs e
vendo se a maneira como elas concordam — e também divergem! — a respeito da
figura de Jesus bate com o padrão encontrado em outras fontes históricas sobre
figuras mais neutras.
Lembre-se do
sentido técnico preciso de “fonte histórica independente” que eu expliquei no
post anterior. Posso me autocitar? Vejam o que eu disse: fonte independente é
“a fonte que não pode ser remontada a outra do ponto de vista literário, ou
seja, a fonte que não copiou simplesmente suas informações de outro texto, mas
se baseia numa tradição — muitas vezes oral — independente. Isso pode ser
inferido a partir de diferenças significativas de vocabulário, ideologia e
estrutura narrativa, entre outras coisas”.
Fonte
independente, portanto, não é fonte “isenta” — até porque, gente linda, isso
não existe. Todos os historiadores e escritores antigos (e modernos!) possuem
vieses ideológicos e políticos, ainda que muitos tentem se esforçar ao máximo
para produzir narrativas que levem em conta todos os fatos e não pendam
injustamente para um lado ou para o outro.
MAS AS FONTES CRISTÃS NÃO SÃO SUPERTARDIAS?
De novo, são
e não são. Devo lembrar aqui que relatos de testemunhas oculares a respeito da
imensa maioria dos eventos da Antiguidade são bastante raros. OK, Tucídides
escreveu sobre a Guerra do Peloponeso, na qual lutou, e o próprio Júlio César
escreveu sobre seu papel na conquista da Gália e nas guerras civis romanas (taí
um excelente exemplo de fonte tecnicamente independente, mas nem um pouco
isenta). Por outro lado, o “pai da história”, Heródoto, fez o mais antigo
relato sobre as guerras entre gregos e persas escrevendo cerca de meio século depois
do fim da contenda, e os principais autores que escreveram sobre os primeiros
imperadores romanos — gente como Suetônio e Tácito — estavam separados por
ainda mais décadas de seus principais personagens.
O consenso
entre os historiadores atuais é que os livros do Novo Testamento provavelmente
incorporam material transmitido oralmente por testemunhas oculares, mas estão
longe de terem sido escritos por tais testemunhas. São, apesar disso, quase
universalmente considerados textos do século 1º d.C., escritos entre 40 anos e
70 anos depois da morte de Jesus, o que é uma distância temporal decente,
embora longe do ideal, no contexto da historiografia produzida na Antiguidade
clássica. De novo, é comparável a Heródoto (que, aliás, também curtia falar de
ocorrências milagrosas em seus relatos).
Breve parêntese: uma pessoa
me “chamou na chincha”, como a gente diz aqui em São Carlos, dizendo que todos
os textos do Novo Testamento são do século 2º d.C. Descobri que um ou outro
especialista defende isso, mas a visão esmagadoramente mais aceita é a que
expus acima. Uma datação muito tardia
dos Evangelhos, e dessa parte da Bíblia como um todo, não faz muito sentido por
uma série de razões. A primeira tem a ver com os próprios manuscritos: o mais
antigo fragmento de papiro do Novo Testamento é do Evangelho de João —
universalmente considerado um texto mais tardio que o dos demais evangelistas,
por sua teologia complexa e por talvez conhecer e usar o Evangelho de Marcos —
e tem idade em torno do ano 125. Dificilmente teríamos a sorte de achar “o”
primeiro manuscrito. Muito provavelmente é uma cópia de um texto mais antigo, e
até uma cópia de uma cópia.
Outro
problema, talvez mais importante ainda, vem da evidência interna — de como os
textos do Novo Testamento funcionam, digamos. O retrato que eles traçam é de
comunidades cristãs ainda incipientes e desorganizadas, bastante próximas do
judaísmo, em vários casos. Há pouca ou nenhuma distinção formal de funções
dentro das igrejas, a figura do bispo ainda não emergiu (exceto em algumas
cartas atribuídas a Paulo as quais, pelo visto, na verdade não são dele) etc.
Só que, a partir do começo do século 2º d.C., todo esse quadro já começa a
mudar. É natural pensar que algumas décadas teriam sido necessárias para esses
desenvolvimentos. O quadro faz muito mais sentido quando se pensa nos textos do
Novo Testamento como, em grande medida, produções do século 1º d.C. mesmo. Fim
do parêntese.
AS DATAS MAIS ACEITAS
Dito isso,
quais são as datas estimadas para as nossas principais fontes cristãs sobre o
Jesus histórico dentro do Novo Testamento? Bem, o apóstolo Paulo escreveu do
fim dos anos 40 ao fim dos anos 50 do primeiro século. O Evangelho de Marcos
provavelmente foi concluído por volta do ano 70. Mateus e Lucas podem ou não
ter suas próprias fontes independentes de dados sobre Jesus (são as chamadas
tradições M e L), mas é quase certo que usaram uma fonte escrita anteriormente,
hoje perdida, o chamado documento Q (abreviação do alemão “Quelle”, ou seja,
“fonte”), que continha quase que só falas de Jesus e poderia ser até anterior a
Marcos. De qualquer modo, o consenso é que Mateus e Lucas teriam escrito entre
os anos 80 e 90. Finalmente, tudo indica que o Evangelho de João é dos anos 90
a 100.
E tem mais,
na verdade, se a gente não restringir o olhar apenas aos Evangelhos e às cartas
de Paulo. Dica: o “Apocalipse de João” não foi escrito pelo mesmo autor do
Evangelho com esse nome só porque eles são xarás. A linguagem e a visão
teológica dos dois livros é bem diferente. O mesmo vale para um dos livros mais
enigmáticos do Novo Testamento, a Carta aos Hebreus, durante muito tempo
atribuída — erroneamente — a Paulo. Também dá para argumentar que ao menos um
evangelho apócrifo, o Evangelho de Tomé, também deriva seus dados de uma fonte
(oral ou escrita) independente sobre Jesus, talvez tão antiga quanto o
“documento perdido” Q. E por aí vai — a maioria desses textos tem as
“impressões digitais” de terem surgido em comunidades cristãs em estado ainda
primitivo, no contexto das primeiras quatro ou cinco décadas depois da morte de
Jesus.
OK, mas esse
monte de gente não poderia ter simplesmente copiado suas informações de uma
fonte original — Paulo, digamos, que é quase sempre o coitado escolhido pra
Cristo (sem trocadilho) quando alguém defende a ideia de um Jesus “mítico”,
inventado? Em tese, poderia, mas não é nem de longe o que parece acontecer.
DIVERSIDADE
Isso porque
cada uma dessas fontes tem uma perspectiva muito peculiar e seletiva a respeito
de Jesus e de sua vida terrena. A começar por Paulo, que fala muito pouco da
vida e dos ensinamentos de Jesus — ele sabe que ele era judeu, que era
considerado descendente de David, que foi crucificado, que fez uma “última
ceia” com seus discípulos, mas não vai muito além disso em suas cartas. Para
obter realmente detalhes “biográficos” sobre Jesus e informações mais claras
sobre o que ele ensinava, é preciso recorrer aos Evangelhos, que são
depositários de tradições que são claramente independentes das de Paulo, apesar
de haver pontos de contato entre elas. Da mesma maneira, textos como o
Apocalipse ou a Carta aos Hebreus apresentam visões da pessoa do Nazareno que
se desenvolveram de modo independente das dos Evangelhos.
Para dar só
um exemplo, enquanto Paulo tem esse aparente descaso por detalhes biográficos
de Jesus, Marcos começa sua narrativa com Cristo já adulto, enquanto Mateus e
Lucas sentem a necessidade de relatar um nascimento divino. Por outro lado,
João vê Jesus como divino “desde a eternidade” — curiosamente, uma ideia que,
ao menos do ponto de vista embrionário, aparece de forma independente em Paulo.
Essa
diversidade é importante porque, se por um lado, ela sepulta a ideia uma
teologia cristã única e imutável que surgiu com os apóstolos e perdurou desde
então, por outro lado ela indica que gente com as mais variadas tradições
culturais e visões de mundo, em vários cantos do Império Romano, passou a
interpretar a figura de Jesus a partir de um ponto mais ou menos definido no
tempo. O grego meio tosco e com forte influência do aramaico do Apocalipse não
é mesma coisa que a linguagem muito mais elegante (e inspirada na versão grega
do Antigo Testamento) do Evangelho de Lucas, a qual, por sua vez, é bem
distinta da narrativa algo “viajante” e filosófica do Evangelho de João.
Mas como
sabemos que cada um desses escritores conservou tradições genuínas sobre Jesus,
em vez de simplesmente dar sua interpretação literária ao personagem, tirada da
sua própria cabeça? Porque, muitas vezes, eles sentem a necessidade de
preservar o que receberam da tradição oral, mesmo que sua própria perspectiva
teológica não bata com os detalhes dessa tradição. Um dos grandes exemplos é
Lucas, autor tanto do evangelho que leva seu nome quanto dos Atos dos
Apóstolos.
Lembre-se de
que Lucas retrata a concepção virginal de Maria pelo Espírito Santo, dando a
Jesus uma natureza divina desde o nascimento. Mas, ao apresentar a pregação dos
apóstolos diante dos judeus logo depois da Ressurreição de Jesus no livro dos
Atos dos Apóstolos, Lucas apresenta “fósseis” teológicos que contradizem
diretamente essa visão. Por exemplo, nas falas do apóstolo Pedro a respeito de
Jesus nesse livro, Cristo é retratado como um homem que realizava milagres por
meio do poder de Deus, e diz-se que “Deus glorificou seu servo Jesus” — sem
sinal de que Jesus fosse Deus encarnado. Essas incongruências indicam que a tradição,
embora maleável, não era um vale-tudo.
Se a figura
de Jesus foi forjada por Paulo ou por algum outro líder da primeira geração
cristã, fica muito difícil explicar porque, em tão pouco tempo, essa
multiplicidade de perspectivas emergiu. O cenário é muito mais coerente com um
fenômeno único — a vida do Jesus histórico — que, com o tempo, engendrou uma
série de interpretações diferentes.
Ainda falta
o epílogo.
continua...Desculpaí (6)
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