Por R. LOPES
É hora de
tentar amarrar as pontas soltas, gentil leitor. Após uma análise exaustiva (em
mais de um sentido, hehehe…) das fontes antigas a respeito de Jesus e dos
critérios usados para tentar determinar a historicidade dos fatos a respeito
dele, minha ideia é concluir com o que, de brincadeira, eu costumo chamar de…
A CONSPIRAÇÃO MAIS BURRA DA HISTÓRIA
Estou sendo
irônico, claro. O que quero dizer é que, se Jesus fosse mesmo uma figura mítica
inventada pelos primeiros cristãos (em geral, o principal suspeito apontado
como mentor dessa invenção é o apóstolo Paulo), essa foi a conspiração mais
burra da história humana.
Para
entender melhor o que isso significa, vamos voltar às fontes cristãs usando os critérios de historicidade que expliquei neste post. O mais importante e universalmente usado é o critério do
constrangimento, que expliquei sucintamente da seguinte maneira:
“O critério
do constrangimento parte do pressuposto de que, por mais que os antigos
cristãos acreditassem em coisas que, para céticos modernos, soam completamente
absurdas, como profetas crucificados que voltam à vida, ainda assim eles tinham
uma boa noção do que pegava mal e do que pegava bem na sociedade de seu tempo.
Em outras palavras: dados sobre a vida e a morte de Jesus que poderiam colocar
tanto o Nazareno quanto os seus seguidores numa posição constrangedora,
vergonhosa ou embaraçosa e ainda assim
eram mantidos nas narrativas dos Evangelhos ou em outra literatura cristã têm
uma chance elevada de serem históricos. Esses dados seriam parte tão forte da
tradição histórica a respeito do sujeito que seria impossível escamoteá-los.”
Se esse
critério é válido, a primeira e mais importante coisa a explicar é porque os
“inventores do Jesus mítico” dar-se-iam ao trabalhar de criar um Salvador
crucificado. Uma invenção dessas não significa apenas escolher retratar Jesus
como alguém que foi submetido ao suplício mais humilhante da Antiguidade,
reservado para criminosos de beira de estrada, escravos rebeldes e outros
zé-ninguéns. Significa também colocá-lo debaixo de um dos piores estigmas
religiosos judaicos: o livro do Deuteronômio, um dos que contêm as leis dadas
por Deus a Moisés e ao povo israelita, diz que a pessoa crucificada é “maldito
de Deus”. Se a ideia inicial era converter os judeus à crença em Jesus — e
todas as nossas fontes indicam isso –, a coisa mais burra do mundo seria
inventar uma crucificação que nunca ocorreu.
Por outro lado,
olhando a questão pelo ângulo da pregação dirigida por Paulo e por outros
líderes cristãos aos pagãos do Império Romano, também parece uma burrice sem
tamanho inventar um líder divino judeu. E isso não apenas por causa da
distância cultural entre judaísmo e paganismo antigos — afinal, o que o cidadão
médio de Corinto ou de Roma sabia sobre as profecias judaicas sobre Abraão ou
David? –, mas também porque uma forma embrionária, mas considerável, de
antissemitismo, era comum no Mediterrâneo antigo, mesmo antes da guerra entre
judeus e romanos que levou à destruição do Templo de Jerusalém no ano 70. Do
ponto de vista estratégico, inventar um “deus-homem” judeu é, de novo, uma
grande bobeada.
Finalmente,
não faz o menor sentido, e parece simplesmente coisa de gente estúpida,
inventar do zero um Messias judaico criado em Nazaré da Galileia, com sotaque
galileu, cercado de discípulos galileus. O herdeiro do rei David não deveria
vir de uma das grandes famílias aristocráticas da Judeia, ou pelo menos ser
alguém de um lugar menos tosco e mais apresentável? O absurdo é tão patente que
vemos os Evangelhos fazendo todo tipo de malabarismo retórico para lidar com
esse fato, desde argumentar que, na verdade, Jesus nasceu em Belém (Mateus e
Lucas) até brincar com o preconceito anti-Nazaré, citando-o, e depois dar a
entender que o local de nascimento de Cristo era irrelevante (João). De novo,
para que inventar uma informação que atrapalha tanto?
UM TIPO DE MESSIAS NUNCA VISTO
A imagem de
um Messias crucificado, morto e ressuscitado hoje nos parece inevitável, mas
isso é só efeito de 2.000 anos de tradição cristã. Na origem, a ideia era tanto
constrangedora — como eu argumentei acima — quanto “descontínua” com o judaísmo
do século 1º d.C. (encaixando-se ao menos parcialmente no critério histórico da
descontinuidade, segundo o qual um fato sobre Jesus tem mais chances de ser
histórico se ele não corroborar o que o judaísmo e/ou os primeiros cristãos
defendiam).
Explicando
um pouco melhor: havia todo tipo de expectativa divergente sobre o Messias
entre os judeus do primeiro século. Alguns esperavam simplesmente um rei humano
da linhagem de David que os libertaria da dominação romana e traria a
independência política de Israel. Outros esperavam uma figura mais
sobrenatural, semidivina, que não apenas seria um grande guerreiro como também
instauraria um reino eterno de paz e justiça na Terra, com Jerusalém como
“capital do mundo”. Caramba, havia até alguns, como a seita provavelmente
responsável por criar os manuscritos do mar Morto, que esperavam DOIS Messias,
um Messias rei e outro Messias sacerdote.
O que
ninguém esperava, no entanto, era um Messias torturado e crucificado pelos
romanos.
Foi preciso
muita criatividade teológica — e muita fé em Jesus da parte dos seus primeiros
discípulos, claro — para pegar esse fato triste, humilhante e constrangedor e
tentar argumentar que era exatamente isso que Deus havia previsto por meio dos
profetas nas Escrituras judaicas. Antes da morte de Jesus, não passava pela
cabeça de nenhum judeu pegar textos do Antigo Testamento como a descrição do
Servo Sofredor no livro de Isaías, ou as passagens sobre o sofrimento do justo
nos Salmos, a dizer que aquilo tudo tinha
de acontecer com o Messias. Seria uma estupidez descomunal inventar tudo isso
se a ideia era só criar uma nova divindade com apelo pop.
PROVAR UMA NEGATIVA?
Quem defende
a tese do Jesus mítico costuma dizer que o ônus da prova, ou seja, a obrigação
de demonstrar algo, está do lado de quem quer defender que ele existiu, da
mesma maneira que é obrigação de quem diz que Deus existe provar que ele existe
mesmo. Afinal, dizem eles, não se pode “provar uma negativa”, ou seja, provar
que algo não existe — basta lançar
dúvidas razoáveis sobre a existência.
Eles que me
desculpem, mas nesse caso o raciocínio deles abusa do princípio acima exposto.
Afinal, eles também estão tentando provar algo, que é a ideia de que Jesus foi
um mito inventado. E, para isso, eles precisam demonstrar como e por que essa
invenção foi feita.
Acho justo
afirmar que os fatos que expus acima mostram que a tese da invenção mítica é
improvável, ainda que não impossível. O princípio da pesquisa histórica, assim
como o de qualquer outra ciência, é claro: a hipótese que consegue explicar com
mais simplicidade e lógica o conjunto de dados disponíveis vence. Dado tudo o
que sabemos, faz muito mais sentido postular que um profeta real saiu de
Nazaré, pregou Palestina afora e foi crucificado por volta do ano 30 d.C.
R. Lopes blog: darwinedeus.blogfolha.uol.com.br/
Fim
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